A cibersegurança nos Colóquios de Relações Internacionais
Nos passados dia 8 e
9 de Maio de 2018, teve lugar, na Universidade do Minho, a XXXIX edição dos Colóquios
de Relações Internacionais, subordinados ao tópico “(In)Governabilidade no século
XXI”. Um dos temas abordados nesta edição foi a cibersegurança, o objecto
principal deste blogue, e contou com a presença de dois oradores especialistas
no tema: André Barrinha e Henrique Dinis Santos.
Conforme já foi
referido anteriormente, André Barrinha é Professor de Segurança Internacional
na Universidade de Bath, no Reino Unido e os seus principais interesses de
investigação são nas áreas dos Estudos Críticos de Segurança, Segurança
Europeia, entre outros. O orador principiou a sua exposição ao afirmar que não
iria fazer uma abordagem técnica nem era especialista em informática e que o
seu principal foco é perceber como é que a cibersegurança, enquanto questão
securitária, é contextualizada e como é que a laboram nas instituições, como a
NATO, a União Europeia ou, mesmo, os Estados. Para além disso, declarou que tem
muitas dúvidas sobre a posição ética a adoptar neste contexto. Nas palavras de
Barrinha, “em termos éticos e políticos, a cibersegurança deve ser entendida
como uma espécie de pântano”.
O palestrante repartiu
a sua explanação sobre cibersegurança em diversos paradoxos, que, segundo o próprio,
tornam extremamente complicada uma acção eficaz em termos políticos nesta
matéria. Assim, a sua estrutura contemplou cinco dilemas e, no final de uma
breve explicação sobre cada um, o orador lançou algumas questões que reflectiam
a própria complexidade do tema.
Em primeiro lugar, André Barrinha
afirmou que o conceito de cibersegurança é um conceito politicamente
contestável e que existem diferentes autores focados em diferentes abordagens. Assim,
o autor lança a questão se devemos seguir uma definição mais abrangente (que
inclui noções como ciberterrorismo, ciberguerra, entre outros) ou algo mais
limitado, que esteja mais concentrado na dimensão técnica do conceito. No entanto,
admite que não sabe qual é a definição ideal. Adicionalmente, e relacionado com
este paradoxo, o orador questiona qual é o objecto de referência da
cibersegurança, ou seja, o que é que esta deve proteger, se os Estados, a economia
ou os indivíduos (utilizadores). Para terminar, afirma que definir o conceito
não é uma questão meramente técnica e que a forma como as entidades estatais e
organizações internacionais definem cibersegurança é importante.
O segundo ponto foca-se na ideia de
que o ciberespaço é um espaço pouco seguro, um “pesadelo para os profissionais
de segurança”. Desta forma, e tendo uma estrutura descentralizada e, por isso, difícil
de destruir, o dilema apresentado é se devemos limitar o acesso às redes de
informação, em que a resposta, segundo orador, é, nos dias de hoje, “não”, ou
se aceitamos o risco da vulnerabilidade acrescida do seu uso massificado.
Em terceiro lugar, Barrinha centrou-se
na iniciativa privada e em como o ciberespaço é, sobretudo, uma área do
privado. São os actores privados (por exemplo, a Microsoft) que têm uma parte
do know-how, interesses económicos em
jogo e ajudam a definir e a implementar a cibersegurança enquanto política
pública. Baseando-se no facto de que o sector privado e o público têm
interesses diferentes, o dilema apresentado é se as empresas têm responsabilidade
social na cibersegurança ou, se não o têm, até que ponto devemos obrigar a ter?
De acordo com o orador, estas questões não são só sobre cibersegurança – tem a
ver com segurança em geral.
O ponto quatro está um pouco
relacionado com as relações internacionais e incide sobre o ciberespaço e o
problema de fronteiras, já que este tem um carácter marcadamente transnacional.
Há um grande controlo por parte dos Estados e, consequentemente, também uma
grande censura, como é o caso do “The Great Firewall of China”. No entanto,
estas barreiras artificiais não são mais do que, segundo o orador, “lombas na
estrada”, que apenas fazem abrandar a circulação, não obrigam a parar. Portanto,
a questão é se deve um Estado investir recursos significativos na tentativa de
controlar os fluxos do ciberespaço ou se deve adoptar uma atitude liberal
relativamente aos mesmos, ou seja, qual é o meio termo no controlo por parte das
entidades estatais no acesso à informação.
O último ponto aborda directamente a
questão do ciberespaço nas Relações Internacionais e, para além de referir o
aspecto das ciberarmas e a confiança que nós, indivíduos, devemos ter nos
agentes estatais, a temática abordada pelo orador que está mais relacionada com
a disciplina de Teoria das Relações Internacionais e, por isso, que me pareceu
mais natural abordar é a questão da atribuição de normas na cena internacional.
Barrinha começa por afirmar que o ciberespaço é um produto da hegemonia ocidental,
é uma criação do Ocidente e, desta forma, resultado de um equilíbrio de poder. No
entanto, este equilíbrio está a mudar, como é visível na cena internacional, estando
a China e a Rússia a tentar interferir com esse equilíbrio. Contrariamente à visão
do Ocidente, a visão destes dois países de cibersegurança assenta na ideia de cibersoberania
e no facto de que o país deve ter controlo absoluto no que se passa no
ciberespaço desse mesmo país, o que, obviamente, resultaria em controlo e censura.
Desta forma, a visão chinesa e russa vai inteiramente contra a lógica de
ciberespaço ocidental, particularmente em termos de governação da internet, em
que não há uma autoridade única no controlo do ciberespaço. Assim, o paradoxo exposto
pelo orador é se mantemos uma confrontação aberta entre os dois sistemas, que
pode contribuir para a vulnerabilização do mesmo, ou acomodamos a visão dos
regimes não-democráticos, com todas as consequências que isso tem em termos de
controlo e censura do ciberespaço.
Em conclusão, André
Barrinha reafirma a sua declaração inicial de que a cibersegurança é um pântano
ético e político e que são inúmeros os problemas e dilemas políticos. Ademais,
garante que o poder para definir regras e prioridades vai ser a chave, tanto a
nível interno como internacional e que o futuro do ciberespaço está totalmente
em aberto.
Henrique Dinis Santos,
graduado em Engenharia Eléctrica e Electrónica pela Universidade de Coimbra e actual
professor do Departamento de Sistemas de Informação da Universidade do Minho, teve
uma abordagem mais prática e técnica sobre a cibersegurança. O professor inaugura
a sua intervenção com uma definição de segurança de informação, afirmando que
esta tem o propósito de “proteger a informação e os sistemas de informação do
que não é autorizado”.
O professor centrou a
sua apresentação numa componente mais prática, em que abordou as
vulnerabilidades e as ameaças do ciberespaço. Começou por reconhecer que
ninguém no planeta compreende globalmente o sistema informático, já que este abrange
um elevado grau de complexidade. Aliás, num tom divertido, afirma que “a engenharia
informática é a engenharia menos rigorosa.” Em termos de ameaças, Henrique Dinis
Santos forneceu alguns exemplos do que poderão ser ameaças cibernéticas,
afirmando que estas se alteram permanentemente: erros e falhas humanas, erros e
falhas técnicas, várias formas de ludibriação, fraude, entre outros. Ao fornecer
dados, percebemos que 75% das ameaças actuais exploram a fraqueza humana e 48%
erros do utilizador.
Mais precisamente, e interagindo
com a actuação do professor Barrinha sobre os actores privados, o orador afirma
que “as empresas privadas fizeram-se para ganhar dinheiro, não para proteger”,
declarando que isto não é uma crítica, mas sim a realidade. Estas podem
proteger, mas o mais importante é o dinheiro. Para além disso, o orador distingue
as ameaças geopolíticas, que se tornaram realidade com a Administração Obama, através
do acrescento de mais uma área ao Pentágono – a cibersegurança –, tendo como
missão “defender o país, atacar os outros”. Numa clara referência à teoria
construtivista, é dito que, no entender dos Estados Unidos, estes usam a
cibersegurança para o bem, no entanto, há outros países que usam para o “mal”, fazendo
lembrar a teoria do “amigo vs inimigo”, ou seja, a nossa concepção de ameaça,
seja em termos de armas nucleares, seja em termos de cibersegurança, depende de
quem a profere.
Seguidamente, o
orador afirma que, percentualmente, o ciberespaço é asiático – os países ocidentais
já são a minoria. No entanto, ninguém o controla. Em termos de ataques, o palestrante
afirma que o custo dos ataques está a favor dos atacantes, ou seja, o benefício
precedido a um ataque é muito maior do que o prejuízo precedido e que as vítimas
não acreditam que as agências governamentais tenham capacidade de resposta – e
muito menos de forma coordenada, a nível mundial.
Em suma, o professor
afirma que a cibersegurança é um processo holístico e que a educação e treino são
a chave! Igualmente, é necessário haver uma legislação mais forte, e não “legislação
de brincar”, como o professor declara. Para além disso, há uma falta de
implementação de normas porque estas custam dinheiro, por outras palavras, não
é algo rentável para as empresas. Assim como o professor Barrinha, o professor
Henrique Dinis Santos assegura que ainda está tudo por fazer, existem muitos problemas
e poucas soluções.
Exposta a intervenção
dos professores André Barrinha e Henrique Dinis Santos, naturalmente, uma comparação
deverá ser feita com o meu primeiro artigo publicado neste blogue. Assim, destaco
como ideias chave de ambas as apresentações a cooperação, a educação, a
regulamentação e a incerteza do futuro, ideias essas mencionadas na primeira
parte deste trabalho. Ademais, constate-se que a cooperação internacional foi
referida, seja através dos discursos de António Guterres ou da criação de uma
Agência Europeia para a Cibersegurança.
A cibersegurança tem
um futuro incerto e, certamente, levanta muitas questões:
Terá a cibersegurança impacto no
sistema internacional e alguma vez haverá uma ciberguerra?
Estarão os Estados preparados para
proteger os seus cidadãos dos perigos cibernéticos?
Que papel caberá aos actores
não-estatais no tema cibersegurança?



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